Um Grande Empreendedor Brasileiro

Um dos maiores engenheiros da história do Brasil, João Augusto Conrado do Amaral Gurgel, natural de Franca, interior de São Paulo, foi formado pela Politécnica da nossa querida cidade.

Nascido na cidade de Franca, em 26 de março de 1926, Gurgel foi um brilhante engenheiro e industrial brasileiro sendo o responsável por, em 1969, montar a Fábrica Gurgel, responsável por produzir veículos 100% nacionais.

Essa fábrica, inclusive, foi um sonho que Gurgel alimentou desde sua juventude. Para tanto, cursou engenharia na Escola Politécnica de São Paulo e, ainda como estudante, apresentou um projeto de carro com dois cilindros que foi batizado como Tião. Nesse momento de sua vida, inclusive, após quase ser reprovado, ele ouviu de um de seus professores: “Carro não se fabrica, Gurgel, se compra”.


João Augusto Conrado do Amaral Gurgel

Após passar por esse “sufoco”, o jovem engenheiro cursou uma pós-graduação nos Estados Unidos e chegou a trabalhar na Buick Motor Corporation e na General Motors, locais onde conquistou importante experiência para realizar seus sonhos anos depois.

No ano de 1958, após voltar ao Brasil, chegou a criar uma empresa de Moldagem de Plásticos conhecida como Moplast e tornou-se fornecedor de vários empreendimentos brasileiros. O engenheiro, mesmo iniciando sua carreira empreendedora com a empresa de plásticos, sempre quis desenvolver uma tecnologia automotiva que fosse brasileira, usando capital brasileiro.

Ao criar seus primeiros veículos, Gurgel ficou famoso por usar carrocerias de fibra de vidro e, também, por ser um homem contrário ao uso do álcool de cana-de-açúcar para a fabricação de combustíveis. Segundo suas palavras: “Terra foi feita para produzir alimentos e não combustíveis”. Mesmo com essa crença, Gurgel fabricou alguns poucos carros movidos a álcool.

Seu sonho de fabricar veículos se consolidou em 1969 quando, na cidade de Rio Claro, fundou a Gurgel Motores S/A. Em 1972,  Gurgel abandonou seus outros projetos e passou a se dedicar exclusivamente à produção de veículos.

O Sonho Se Torna Realidade

No ano de 1975 a ideia de Gurgel começava a se tornar uma realidade palpável.  Nesse ano começaram a sair os primeiros veículos utilitários voltados para “fora de estrada”.

Após essa primeira linha, em 1981, a Gurgel foi a responsável por lançar o primeiro veículo elétrico da América Latina. O modelo possuía um nome bastante curioso: Itaipu E-500. Essa pequena van elétrica era recarregada em uma tomada doméstica, mas seu desempenho não era dos melhores, não ultrapassando os setenta quilômetros por hora.

Itaipu Carro elétrico da Gurgel.

Sua bateria, que representava 25% do peso do carro , tinha uma vida muito curta e acabou auxiliando para que o carro fosse um fracasso de vendas. Apesar disso, Gurgel ainda acreditava que o futuro eram os carros elétricos e, mesmo sem produzir mais veículos desse tipo, continuou as pesquisas para chegar a um modelo economicamente viável.

No ano de 1986 a empresa lançou um belo modelo chamado de Tocantins e o Carajás, um veículo “utilitário-esportivo” que utilizava um motor VW 2.0 a água e com tração traseira. Os modelos tiveram bastante aceitação por parte dos consumidores chegando, até mesmo, a fazer parte de frotas oficiais de órgãos públicos e polícias.

Gurgel Carajá

O Primeiro Carro Brasileiro

Enquanto lançava vários modelos a empresa trabalhava, “em segredo”, em um projeto bastante especial e ambicioso: um carro produzido todo com tecnologia nacional. Conhecido como Carro Econômico Nacional, o CENA, queria criar um veículo de fácil acesso à população que fosse econômico e tivesse manutenção simples e barata.

No fim de 1987 começaram a ser produzidas as primeiras unidades desse projeto e, em 1988, a ideia se consolidava com o nome de BR-800. O feito da empresa foi tão grande que, o Governo Federal, de maneira solidária, aceitou que o carro pagasse apenas 5% de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), enquanto os demais carros pagavam 25% ou mais dependendo da cilindrada.

O BR-800 possuía carroceria de fibra de vidro sobre um chassi tubular. O motor tinha dois cilindros e era refrigerado, além de possuir um carburador e ser movido a gasolina. Sua força chegava a “incríveis” 33 cavalos.

Apesar de todo o otimismo que circulou o projeto, um dos principais objetivos não foi atingido: o preço. Nos primeiros anos, todas as unidades fabricadas eram voltadas a quem comprasse algum lote de ações da Gurgel. Mesmo com esse tipo de “venda”, o sucesso do carro foi imediato, existindo, inclusive, quem conseguisse revende-lo com até 100% do que fora investido na empresa.

É que a ideia de um carro totalmente brasileiro despertara um generalizado nacionalismo ufanista. Em 1990, quando o carro começava a ser vendido sem as ações e parecia surgir uma potência brasileira no mercado automobilístico, o governo resolveu isentar todos os carros com motores menores do que 1000cm³ do pagamento do IPI (em uma espécie de traição à Gurgel). Assim a Fiat lançou quase instantaneamente o Uno Mille, pelo mesmo preço do BR-800, mas que oferecia mais espaço e desempenho.

No ano de 1991 o BR-800 foi redesenhado, com melhorias no interior e na transmissão, passando a ser conhecido como BR-Supermini. Entretanto, nem mesmo essa tentativa de se manter vivo deu certo.

Gurgel Super Mini

Em 1992 a Gurgel Motores entrou em concordata, e os lançamentos do Chevette Junior e Gol 1000, em 1992 e 1993 respectivamente, ambos desfrutando da mesma vantagem fiscal do Uno Mille, deram o golpe de misericórdia na empresa brasileira. A empresa acabou fechando suas portas no final de 1996. Estima-se que, se tivesse mais alguns anos de vida, teria conseguido produzir um carro barato e de fácil acesso a todos: o Delta.

Sofrendo do mal de Alzheimer durante oito anos, João Gurgel morreu no,  dia 30 de janeiro de 2009, aos 82 anos, na sua casa, na cidade de Rio Claro. Para quem quiser conhecer ainda mais sobre o engenheiro, recomendamos esse documentário sensacional: https://www.youtube.com/watch?v=iBcA8ap7iHY

Add a Comment